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quarta-feira, janeiro 30, 2008

Weber e a Burocracia


Inicialmente as empresas eram dirigidas de uma forma muito pessoal, num ambiente desprendido de regras, em que os trabalhadores eram leais e apenas estavas ligados a uma só pessoa, apenas tinham uma chefia. Onde os objectivos dos empregados se elevavam acima dos objectivos da organização.
A Burocracia desenvolveu-se devido à instabilidade e parcialidade da Teoria Clássica e da Teoria das Relações Humanas, onde se verificava a ausência de uma abordagem global, completa e envolvente das organizações.
Marx Weber ao estudar os sistemas religiosos do ocidente e alguns do oriente constatou que existia entre eles uma semelhança: influíram o aparecimento do capitalismo. Para ele o capitalismo era “uma forma distinta de organização económica”
[1], que favorece o desenvolvimento social. E é com o capitalismo que a burocracia tem um maior impacto.
Com isto, este sociólogo entendeu que as empresas deveriam ser geridas de uma forma impessoal e racional, pois também as empresas cresciam a grande ritmo e a sua complexidade aumentava. Daí surgiu a necessidade de se estabelecer um modelo organizacional bem definido, a Teoria da Burocratização, vista como sendo um tipo ideal de gestão.
Segundo esta teoria, o homem poderia ser remunerado, não só para trabalhar, mas também para ter atitudes e comportamentos predeterminados, de forma que estes não interfiram nas tarefas a realizar.

Para Weber, “A Burocracia é o único modo de organizar eficientemente um grande número de pessoas, e, assim, expande-se inevitavelmente com o crescimento económico e político”.
[2]
Mas não foi somente a burocracia que se desenvolveu, as novas tecnologias e as novas ciências também, desenvolvimento ao qual Weber designa por racionalização. E racionalização é a organização economico-social, segundo princípios de eficiência, tendo como suporte o conhecimento técnico.
Para o sociólogo alemão, todas as organizações, estão, na sua maioria, impregnadas de burocracia, até mesmo nas sociedades mais tradicionais da China, no entanto a burocracia só se desenvolveu com a modernidade. Apesar de ter lacunas, este conceito, era a melhor forma de lidar com as complicações administrativas, dos sistemas sociais.

Construiu o tipo ideal de burocracia, e com este estudo enumerou algumas características:
Hierarquia – a tarefa deve ser encarada como um dever; na pirâmide da burocracia, a autoridade máxima está situada sempre no seu cume, e até á sua base encontram-se mais indivíduos de autoridade, mas à medida que se desce no triângulo a autoridade vai diminuindo. Os dirigentes não procediam consoante a sua personalidade mas de acordo com o poder legado à sua função e cargo;
Regras – as regras dirigem todos os empregados, que pode ser interpretada de várias formas, e que é mais vasta nos cargos mais altos. Tem por base uma legislação própria, concebida anteriormente, apresentada de uma forma escrita. O empregado não pode fazer o que ele pretende mas sim o que a organização exige que ele faça;
Trabalhadores remunerados – a exercerem a sua função a tempo inteiro, com vencimentos invariáveis, de forma a, se estabelecerem numa determinada carreira, e onde as promoções são adquiridas por antiguidade e/ou na capacidade de trabalho;
Divisão de trabalho – cada empregado tem a sua tarefa, e a sua vida privada não pode interferir na sua vida profissional. Esta divisão é feita de uma forma racional e está dependente dos objectivos a atingir. São profissionais especializados e assalariados;
Recursos materiais – nenhum empregado é proprietário dos recursos materiais com os quais trabalha, nem controlam meios de produção; tudo é pertença da organização onde trabalham.

Uma organização que tivesse estas características era, segundo Weber, uma organização eficaz, precisa, rápida e clara efectiva e eficiente, bastante superior a outras formas de organização.
Recta, produtiva, justa e objectiva. Impregnada de regras e procedimentos formais com o objectivo de sucesso.
Os funcionários das organizações burocráticas eram seleccionados e promovidos segundo a sua competência, a sua admissão era feita através de testes e concursos; não eram uma propriedade da organização onde trabalhavam.

Weber enumerou algumas vantagens da burocracia:
O racionalismo referente aos objectivos a alcançar, torna a organização eficiente;
A exactidão da definição e atribuição de tarefas que proporciona uma maior rapidez nas deliberações da organização, quando se toma uma decisão, esta é igual em todas as chefias;
Como as regras são feitas de uma forma escrita, não há lugar a equívocos, tudo é previsível, até as alterações;
A rotina conduz ao padrão, o que implica uma redução de custos e erros, e os profissionais não interferem nas tarefas dos outros;
Subsituação imediata de um funcionário que saia da organização.

No entanto, esta teoria, não tem só vantagens, por vezes podem surgir algumas desvantagens:
Devido à importância das regras, muitas vezes são esquecidos os objectivos da organização, e as próprias regras passam a ser objectivos;
Absolutismo de regras;
Como tudo é feito e comunicado de uma forma escrita, o excesso de papel e o excesso de formalismo são evidentes;
A existência da padronização cria uma barreira à aquisição de novos conhecimentos; a mudança não é desejada;
A impessoalidade aprofunda os cargos, fazendo diminuir o relacionamento entre os profissionais;
As decisões são sempre tomadas pelas chefias – autoridade;
Chefias passam a estar sinalizadas, surgem diferenciação de status, conforme a autoridade que possuem;
Fechada à mudança e à criatividade.

Com tudo isto, pode-se afirmar que o objectivo da burocracia é a máxima eficiência dentro das organizações. É um sistema social que predomina nas sociedades modernas, e não implica só a administração das organizações mas também dominação; é uma forma de poder hierárquico e autárquico que pertence ao grupo de pessoas que se encontram em gestão – os burocratas.
Esta teoria não existiu apenas no tempo em que foi iniciado o seu estudo, presentemente esta teoria ainda é bem visível nas empresas públicas e privadas.



[1] Anthony Guiddens (2000), Sociologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, pág. 29
[2] Idem

Status


Status é um privigélio, que pode ser positivo ou negativo, está dependente do estilo de vida, da educação, da formação, do prestígio. O facto de não ter dinheiro, bens ou propriedades, não implica que o individuo não tenha status; ter satatus é ter poder.
Pode-se ter status por pertencer a uma determinada profissão, de uma linhagem familiar de prestígio ou deter poder político.
O status, segundo Weber, pode ser considerado uma comunidade, e também existe uma situação de status, não por uma razão económica mas por uma razão social. Razão esta que pode ser positiva ou negativa, do que se designa por honra; mas que não deixa também de estar ligado ao factos económico-financeiro. A honra nem sempre está associada à situação de status, algumas vezes podem mesmo estar em posições opostas; mas este facto varia de sociedade para sociedade.
Os individuos que têm a mesma honra de status, são aqueles que têm um igual modo de vida; ou porque moram na mesma rua, ou na semelhança de empresas que dirigem ou que pertençam a uma determinada família distinta.
Estes grupos podem ser de tal forma coesos que dificilmente deixam entrar novos “membros”, daí Weber afirmar que o status está a evoluir para uma situação identica à das Castas. Pessoas de status superior não se relacionam com pessoas de status inferior, nem se admite que o contrário aconteça. Daí se verificar a existência de uma estratificação no status, muitas vezes intensa, como se se tratassem de diferenças étnicas.Também pode acontecer uma desqualificação de status, quando a actividade do individuo é considerada desqualificada e sem prestígio; como é o caso dos artistas.

Classes Sociais


Classe é um grupo de individuos que têm igual valor de bens, património e poder. Existem vários tipos e formas de classe: para pertencer a uma classe um individuo tem de ser detento de propriedades e monopólio no mercado onde se movimenta, ou viver de rendimentos passados ou presentes e ter status.
Apesar disso não existe uma “luta” de classes, estas vivem sem ultrapassar os “limites” da sua classe. O que se verifica é uma “luta” dentro das próprias classes, sendo mais notória na classe mais pobre.
Segundo Weber existem três classes sociais:
os ricos, proprietários de rendimentos, empresários, banqueiros e intectuais; detentores de grandes empresas e oferecem trabalho
os pobres, que são o “Proletariado”, os individuos sem dinheiro, operários, sem status e sem qualificação;
e a chamada” Classe Média – situada entre ambas - que têm uma escolaridade, conseguindo um melhor emprego, o que permite a uma melhor condição de vida, ou seja, a pequena burguesia.
Uma classe não é uma comunidade, apenas representam fundamentos. O que determina a classe social é o facto do individuo ser ou não detentor de “Posses”; de habitações ou terrenos, independetemente das suas dimensões.
A situação de classe é determinada pelo que o individuo tem para oferecer no mercado, podendo originar variações – a situação do mercado influência e determina a situação de classes.
Quando não há nada para oferecer, pode-se procurar o mercado não para vender ou para trocar, mas sim para pedir emprestado, assim surge o mercado de crédito. As taxas de juros praticadas estão dependentes da necessidade momentânea, e quem pede tenta sempre procurar quem lhe cobre menos juros, aí iniciam as “lutas de classes”. O que se verifica que o sector económico controla e influencia o social.
Assim, verifica-se que o mercado e o factor económico geram as classes sociais.
Existem várias pessoas que pertencem à mesma situação de classe, que têm os mesmos interesses e os defendem, muitas vezes originando comunidades que lutam com outras comunidades de situação de classe superior ou inferior. É o caso dos sindicatos, em que os seus associados se juntam, protestam e lutam pelos seus interesses – a esta movimentação designa-se por acção de massas. Originam pequenas comunidades, mas no entanto, uma classe, segundo Weber, não deverá ser considerada como uma comunidade.

PARTIDOS


O partido é uma associação de individuos, geralmente ligados à política, liderados por um dirigente, em que o único objectivo é a detenção de poder, quer a nível material quer a nível ideial, para usufruto privado ou público, não olhando a meios para o alcançar.
O dirigente e o seu quadro administrativo são escolhidos através de uma eleição livre. Os estatutos do partido também são sujeitos a aprovação através de votação dos membros.
Na época das eleições existe um grupo que tem como principal objectivo a angariação de votos, para o dirigente que apoiam, ser eleito; e fazem-no de uma forma voluntária. Origina-se uma luta de poderes.
Há varios tipos de partidos, que se diferenciam pelos seus conteúdos e objectivos, possuem hierarquias e organizações diferentes e formas de poder distintas.
As pessoas que investem nestas associações partidárias, preferem ficar no anonimato, mas onde se verifica um jogo de interesses materiais e ideológicos.

Clássicos da Sociologia


A sociologia nasce com Comte em 1839, como ciência independente. Posteriormente surgiram alguns teóricos que se debruçaram sobre o social, como foi o caso de Marx, Weber, Durkheim, Simmel, Pareto, Parsons, Merton, entre outros.
Anteriormente outros pensadores realizaram estudos políticos, filosóficos, económicos, e outros; onde os aspectos sociais estavam presentes. E pelo facto de se começar a fazer questões a nível do social, e de se verificarem problemas sociais surgiu a necessidade de uma ciência experimental e metodológica. Pode-se assim afirmar que a sociologia nasceu para ajudar outras ciências, e por essa razão elas são importantes para a sua compreensão.
Também na sociologia, à semelhança de outras ciências, existe um conjunto de pensadores que marcam uma determinada época ou corrente sociológica; pelos pensamentos e teorias criadas, tornando-se uma referência para os outros, e são a esses pensadores que se digna de clássicos.
Os clássicos contribuíram com paradigmas, conceitos, teorias, exploração e desenvolvimento científico, tornando-se fontes de conhecimento bastante importantes para actuais investigações sociológicas; porque são, presentemente, válidos e legítimos. Os clássicos não são contestáveis, são a priori verdadeiros e acreditados.
Por essa razão, os sociólogos contemporâneos, estudam os grandes clássicos e os utilizam nas suas investigações, geralmente dando preferência a um pensador, e que, muitas vezes, originam fundamentos para novas escolas.
No entanto as opiniões dividem-se: os positivistas e humanistas consideram que os clássicos devem ser apenas estudados apenas numa perspectiva histórica, os empiristas ponderam que não existe relação entre a sociologia e os clássicos.
Os clássicos são mais referenciados nas ciências sociais do que nas ciências naturais. Segundo os positivistas este facto deve-se estender também às ciências sociais, pois e semelhança entre ambas as ciências são elevadas; a ausência de clássicos deveria ser uma outra semelhança.
Segundo Merton, a ciência é sistemática e experimental, que possui conhecimentos anteriormente experimentados, verificados e considerados válidos. E que se podem resolver problemas contemporâneos com estudos feitos no passado, pois estes poderão ser considerados como pré-descobertas ou antecipações.
No entanto o estudo dos clássicos não pertence à Sociologia mas sim à História. Para ele não existem textos clássicos, existem apenas comentários e críticas, e o facto de se classificar um texto como clássico, está a torná-lo privilegiado. Estes textos devem ter uma componente prática e utilitária e como fontes de dados; devem ser estudados como história da teoria sociológica.
As ciências são evolutivas, empíricas e do seu consenso não-empirista, e também evolutivas, não podendo assim, formar clássicos.
Contrariamente, o autor do texto, não compartilha da opinião de Merton. Tanto nas ciências sociais como nas ciências naturais, as suas práticas são bastante diferenciadas; e a ciência natural é não empírica, facto esse, que faz com que esta não recorra aos clássicos.
Alguns autores, como Habermas e Kuhn, defendem que, primeiramente se deve definir o que é ou não é científico e empírico. Mas defendem que os textos clássicos são modelos importantes para os estudos realizados no presente, não devendo estes ser padronizados.
Mas é o empirismo que distingue as ciências naturais das ciências humanas. E são os seus profissionais que designam se existe ou não problemática científica, e especificidade, para se proceder a investigação. No entanto, nem todos os autores têm a mesma opinião: existe ou não base científica num problema.
Kuhn designa este facto de discordância como crise paradigmática. E nesta situação não se dá atenção aos clássicos mas sim ás dimensões empíricas da ciência natural, e aos modelos anteriormente apresentados, não empiristas, e anteriormente comprovados.
Nas ciências sociais estes modelos também têm uma enorme importância, mas igual importância é dada aos clássicos, e também às leis explicativas, empiristas e não empiristas.
Para Foucault, o que existe são discursos, dai designar a sociologia ser um campo discursivo, em busca da verdade, e como essa verdade poderá ser alcançada e definida.
Os positivistas dão primazia à explicação, em vez da teoria. Elevam a metateoria dos clássicos: Marx, Weber e Durkheim; considerando-os grandes analistas e empiristas, e não somente teóricos, e onde não existia o discurso mas sim uma metodologia teórica.
Logicamente que eles não tinham a mesma linha de pensamento e, com isso, verifica-se a existência de discrepâncias empíricas e ideológicas, originando diferentes operacionalizações de conceitos. E é nos estudos maiores, e em que a teoria está orientada que se verifica uma maior discussão dos dados empíricos; segundo Blau, o empirismo e a teoria andam sempre juntos mas em quantidades diferentes.
O que também varia segundo o autor é o discurso, a lógica, os modelos, a metodologia, definições, factos; para além da teoria e da empíria.
A adopção de um clássico é a adopção de um ponto de referência representativo, que facilita a discussão teórica, e como se segue uma teoria padronizada faz com que os cientistas tenham mais “confiança” no seu trabalho, pois têm como suporte um clássico, um nome que já deu provas válidas de conhecimento, sendo esta legitimada sem discussão, tornando-os privilegiados.Os clássicos são um contributo para as ciências sociais, são provenientes de grandes talentos, aos quais recorrem cientistas menos talentosos. No entanto também é necessário ter talento para recorrer e proceder uma selecção dos clássicos a utilizar.

sexta-feira, junho 15, 2007

Celibato


O facto de se estar sozinho, vai contra as leis da natureza. Muitas vezes é encarado como uma forma de vida marginal, podendo mesmo levar à exclusão social do indivíduo solitário. Era mais tolerado nos homens do que nas mulheres. O homem celibatário conta com o apoio da comunidade, ao contrário, a mulher fica completamente só, sem homem e sem o apoio da comunidade.



Devido a esta solidão forçada, as mulheres aprenderam a ser auto-suficientes, de forma a serem aceites socialmente, como mulheres celibatárias. Em oposição, os homens não desenvolvem nenhuma faceta da mulher, pelo facto de se encontrarem sozinhos, existe sempre uma mulher na família para o ajudar.



Muitas vezes pode-se confundir os conceitos de individualização e celibato, e estes não são iguais. A individualização está relacionada com a sociedade, enquanto que o celibato está relacionado apenas com o indivíduo, e está mais profundamente ligado à individualização da sociedade; numa perspectiva mais moderna pode-se considerar o celibato como a vida a solo.



Mas quando se fala de celibato há a ter em conta que ele existe tanto no masculino como no feminino. Na parte das mulheres surge relacionado com feiticeiras ou prostitutas, nos homens aparece associada a salteadores e carvoeiros. Ou seja, o celibato aparece sempre associado a forças do mal.



Existe também uma forma de celibato mais radical, e isso acontece quando, um homem ou mulher, se entregam a causas sociais, politicas, militares ou profissionais, deixando de lado a sua vida. E que muitas vezes transporta o individuo através da mobilidade social, para um nível superior.





Uma vida a solo não é especificamente escolhida, no entanto, as pessoas que as vivem não têm a pretensão de acabar com ela.



Quando se fala em celibato ou vida a solo, a tendência é pensar que a pessoa mora sozinha, mas antes do século XIX isso não era uma regra, tanto moravam com as suas famílias como sozinhos; com uma maior propensão para esconder e afastar este tipo de pessoas.



Actualmente as pessoas vivem mais sozinhas, mesmo que isso acarrete inúmeros problemas de ordem financeira, na sua própria habitação, longe da família. O facto de morarem sozinhos afirma a sua autonomia.



Inicialmente, o celibato era mais frequente nas pequenas comunidades rurais; só a partir do século XIX é que os valores começaram a aumentar nas grandes cidades.



As mulheres solitárias são mais numerosas na velhice e na juventude: na velhice devido à viuvez e na juventude devido à sua fuga das zonas rurais para as cidades em busca de trabalho. É difícil encontrar-se uma mulher a viver sozinha, numa aldeia, na sua juventude, pois esse facto não é bem visto pela restante população.





Contudo, a emancipação feminina pode conduzir a um prolongamento do celibato, pois a profissão, ou a entidade patronal, assim o exigem. As mulheres ganham a sua autonomia financeira em troca de casamentos tardios e de curta duração, devido à idade em que se casam.





A solidão é um factor que atinge as várias classes sociais: desde os pobres aos ricos. Os homens pobres dedicam-se à mendicidade, e os homens ricos privilegiam a vida boémia. No caso das mulheres estas entregam-se ao trabalho e à escolarização, independentemente de serem ou não ricas. Em consequência verifica-se um aumento da escolaridade, e um aumento da competência profissional feminina. Mas este sucesso não é suficiente para fazer esquecer uma vida de solidão.



Antigamente as mulheres autónomas eram vistas como desviantes das normas sociais, chegando mesmo a ser estigmatizadas pela sociedade. Uma mulher só tanto poderia ser uma mestra na sua profissão ou uma prostituta.





O celibato pode ser uma das causas do empenho, exagerado, numa determinada profissão, contudo o medo de ser estereotipada como solteirona está sempre presente. Muitas mulheres preferiam o prazer do momento do que uma vida rígida de matrimónio, mesmo que as designassem como marginais.





Depois da Segunda Guerra Mundial, a mulher volta-se de novo para o seu matrimónio, para a construção e manutenção do seu lar. Inicia-se uma evolução tecnológica, lenta, na área doméstica; surgem as máquinas para ajudar as mulheres.



Apesar de estar entre o marido e os filhos, e da lentidão dos avanços tecnológicos, surge uma revolução no corpo da mulher: deixa de usar chapéu, espartilhos. A mulher começa a mostrar o seu corpo, fazendo-o sempre com individualismo. Dentro das suas casas também se verificam mudanças: a mulher assume, no seio do lar, uma posição igualitária ao homem.


Com isto, muitas mulheres começam a se desprender dos homens, iniciando o divórcio.



Em 1919, as portas da universidade vêm entrar o sexo feminino, tornando-as, ainda mais, independentes e fortes.



Esta e outras revoluções femininas, nos Estados Unidos da América iniciaram-se nos finais de século XIX. As evoluções tecnológicas domésticas ocorreram a um ritmo mais rápido, e a mulher ganhou tempo. Assim, originou-se uma evolução na intimidade do lar, entre o casal. Ambos eram iguais e não sentiam a necessidade de uma satisfação sexual fora de casa, fazendo com que as relações conjugais se estabilizassem. Mas nos anos sessenta tudo se desmorona e dá-se uma autonomização dos casais, indo cada um deles para seu lado.



Para além do modelo europeu e americano, existe também o escandinavo. Neste existia uma estrutura triangular: o individuo, a família e o Estado; quando um destes alicerces estivesse abalado os outros dois tinham que ser todo o suporte e fortalecimento. Aqui o mais importante é a autenticidade dos laços sociais entre os indivíduos e os casais.



As mulheres que vivem sozinhas são apontadas pela sociedade como sendo marginais e excêntricas. Este estigma também faz recair sobre elas associações e classificações diversas, muita desconfiança e até censura. Tudo isto porque não seguiram o modelo social e convencional familiar.





Mas não é só a sociedade que usa o seu “dedo” acusador, familiares e amigos também o fazem, pois não resistem à pressão social do modelo celibatário, considerando-o como não normal. Este modelo não dá continuidade ao tradicional modelo familiar, nem prolonga a sua geração.

sexta-feira, abril 27, 2007

Mafaldinha


A Mafalda, apenas com dois pontos, os olhos, conseguia transmitir sentimentos de raiva, ódio, amor ou compaixão. Alguns autores defendem que, uma das fontes de inspiração de Quino era a Bíblia. Nasceu pelas mãos e lápis de Quino, para uma publicidade a electrodomésticos, inspirada num filme que havia visto, onde existia uma personagem chamada Mafalda, nome que lhe pareceu alegre. Mas não foi um sucesso e Mafalda foi guardada numa gaveta.
Mafalda era um desenho animado, filha de uma doméstica e de um corrector de seguros, e que, com o passar do tempo viu-se acompanhada de novas personagens. Em 25 de Julho de 1973 deixou de desenhar esta fantástica personagem, durante 26 anos. Os livros continuavam a ser publicados em vinte e seis línguas diferentes e continuavam a ser um sucesso.
Simboliza a juventude argentina, e talvez outras sociedades. É rebelde, irreverente, revoltada, contestatária, malcriada, inconformada, questionava tudo e todos, e tenta a todo o custo transformar a sociedade e torná-la melhor; fazendo dela uma personagem lúcida e preocupada. Ecológica, pois preocupava-se com a situação do nosso planeta, com os problemas do mundo, com questões sociais, relações de poder e até mesmo com a opressão e dominação social.
É muito mais que uma criança que apresenta uma postura de adulto, como tantas outras que já surgiram na banda desenhada: ela é a porta-voz de todas aquelas questões que os leitores de suas tiras gostariam de ter a coragem de fazer para o mundo, mas que nem sempre o conseguem.
Sem dogmas, sofismas ou preconceitos, não aceita o mundo como ele está ou é; a boneca animada tornou-se a “consciência” social, e boca que transmitia o que muitos pensavam e não tinham a coragem de dizer. É chamada de “anticonformista e heroína iracunda”, ou seja, tem uma atitude de oposição a todas as formas de influência social, muitas vezes causada por resistência psicológica, fazendo dela uma personagem irada e enfurecida com a sociedade, de tal forma que não aceita a integração que lhe é dada.
Apesar de representar uma criança, Mafalda, revela uma grande maturidade. Sabe que vive num mundo cheio de injustiças e desigualdades, mas não aceita ser a responsável; atribui a culpa a geração anterior à sua, e não deseja fazer absolutamente nada para alterar esse facto, apenas o constata e o critica. Retrato de criança, comunica mais com os adultos. Interessa-se por política, economia, pelo mundo social; tudo o que a rodeia, e que, aos seus olhos não está correcto, é alvo de duras críticas. As personagens que rodeiam as suas histórias representam papéis sociais: capitalista, sonhador, espírito maternal. Não se fica simplesmente pela crítica ao seu país, mas estende-se por todo o mundo. Tornou-se, para alguns, um ídolo. E apesar de ter nascido há alguns anos atrás, esta boneca, continua bastante actual.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Gilles Lipovetsky


"Se o Sexo É Livre, Porque É Que a Sociedade Não É Promíscua" Por ANDRÉIA AZEVEDO SOARESDomingo, 12 de Maio de 2002

ENTREVISTA COM GILLES LIPOVETSKY
O autor de "A Era do Vazio" esteve ontem no Porto para apresentar uma conferência sobre a sedução na era pós-moderna. Nesta conversa com o PÚBLICO, explica como o individualismo contemporâneo afecta o amor, o sexo e a política.

"A Era do Vazio" é talvez o seu livro mais conhecido. Nele, o filósofo francês Gilles Lipovetsky assinala a existência de um processo de personalização, capaz de tornar as sociedades pós-modernas apáticas e preocupadas com o próprio bem-estar.

Assim, as pessoas tenderiam a fazer as suas escolhas sem investir no espaço público, bem como a abraçar posturas hedonistas ou narcisistas.
Nesta entrevista, no entanto, o autor explica que o individualismo não provoca necessariamente o caos.

O amor continua a existir, o que muda é a quantidade de relacionamentos que encetamos para encontrá-lo fugazmente.
A liberdade sexual é total, mas poucos promovem orgias. O eleitor torna-se imprevisível, mas a democracia, como se viu na França, "não está ameaçada".
O próprio turbilhão gerado pelo individualismo contemporâneo reorganiza uma estabilidade social. É um "caos organizador", como explicou Lipovetsky.
O professor da Universidade de Grenoble esteve ontem no Porto para apresentar a conferência "O Amor e a Sedução na Era Pós-Moderna", no âmbito de um encontro promovido pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise na Fundação Cupertino Miranda.

PÚBLICO - Escreveu que, na era pós-moderna, "a sedução já não é libertina". O amor, tal como o conhecemos hoje, vive fora da sedução?
GILLES LIPOVETSKY - Há na sociedade pós-moderna um conjunto de fenómenos que se opõem fortemente à lógica da sedução. A pornografia, por exemplo, é a anti-sedução. As coisas agora são muito rápidas, já não há aquele teatro do amor cortês. E isso acontece porque hoje valorizamos a verdade do desejo, a autenticidade. A segunda questão advém da liberalização sexual dos anos 70.

A pílula anticoncepcional?
Sim. E o fim do julgamento da conduta sexual das mulheres. A virgindade deixou de ser um valor. As feministas proclamavam que o ritual da sedução era então igualitário. Mas a verdade é que não houve essa partilha do papel do sedutor. A lógica individualista proporcionou a autonomia no interior dos casais. Mas o amor continua a existir. Refuto a ideia de que o individualismo faz o amor morrer. E a sedução não se coaduna com essa lógica da autonomia. A iniciativa, o avanço sexual continua a ser largamente uma prerrogativa masculina. Há sempre quem diga que agora a mulher também promove a aproximação, mas isso é mais um discurso feminista do que a realidade. As mulheres adoram ser cortejadas e esperam por isso. O grande paradoxo é que o princípio da autonomia foi reconhecido nos casais, mas o papel da sedução permaneceu não-permutável.

O indivíduo pós-moderno vive voltado para si próprio, mas também deseja um relacionamento afectivo com o outro?
Sim. O sentimento não desapareceu. Ao contrário do que se pode pensar, o individualismo não aboliu o relacionamento. Repare nas canções de Céline Dion. Elas não falam senão de amor. O que muda é a possibilidade de recomeçar a vida amorosa. Continuamos marcados pelo ideal do amor trovador. Queremos uma relação forte, um amor arrebatador, mas não para toda vida - e aí está a diferença.

Mas o facto de termos avançado para um novo conceito de relação, que à partida sabemos que será finita, e, ao mesmo tempo, de idealizarmos um amor arrebatador não nos provoca uma angústia de algo inatingível?
O amor é que é impossível. Não pode haver um amor feliz, pois assim seria uma paixão forte - e, como tal, seria trágica. Estamos felizes durante um período.
Quando as coisas ficam estáveis, um dos dois começa a sofrer. Mas não é a condição pós-moderna que provoca essa angústia. O amor seria o contrário do individualismo, uma vez que se vive para o outro. Mas, por outro lado, não há amor sem individualismo, pois uma relação pressupõe a escolha de alguém. O amor implica reconhecimento da autonomia dos sentimentos. Queremos casar com aquele que amamos.
Depois vem o divórcio.
O casal pós-moderno faz tentativas. Nós agora temos mais vidas amorosas. Recomeçam sucessivamente.

Há actualmente uma vaga de livros autobiográficos que tornam pública a conduta erótica da mulher - "A Vida Sexual de Catherine M.", por exemplo. Como vê esse desejo feminino de registar a própria sexualidade? Isso é um fenómeno coerente com a lógica individualista. Hoje as mulheres escrevem literatura erótica na primeira pessoa e até fazem filmes pornográficos. E é interessante que essa voz narrativa seja feminina. Antes, o discurso erótico era dominado pelos homens. Sade, por exemplo. Catherine Millet fala menos dos seus sentimentos e mais das suas peripécias sexuais. Isso não deve ser visto como um sinal do regresso da promiscuidade. A autora conta o que fez há vinte anos, quando não se pensava na sida. A fama do livro veio justamente do facto daquela história nada ter a ver com o que acontece hoje. E as pessoas indagam-se por que não sentem vontade de fazê-lo numa altura de total permissividade. Se a sexualidade agora é livre, porque é que a sociedade não é promíscua? A resposta está no facto de o homem individualista se querer sentir valorizado por uma pessoa que ele próprio escolheu. Isso conduz à afirmação do sujeito, ao passo que a orgia é precisamente a negação do indivíduo. E a cultura individualista que temos não combina com essa desvalorização do indivíduo.

Positivismo


A industrialização origina mudanças de ordem: politica, cultural, religiosa, etc.
Entra-se numa nova fase, nas sociedades europeias; surgem problemas sociais como a delinquência, os conflitos sociais e a pobreza.
A sociedade está cada vez mais insegura, generalizou-se uma instabilidade social, sendo esta gerada pelo capitalismo.
Perante estes problemas pensou-se em como seria possível resolvê-los, e daí surgiram os primeiros pensadores sociais.

Mesmo antes da industrialização já existiam pessoas preocupadas com o social, entre os quais: Aristóteles, Platão, entre outros; e foi a partir daí que se aumentou a preocupação do social, bem como a resolução dos problemas sociais.
Surge Comte que tenta encontrar mecanismos que tentassem resolver os problemas sociais e também tentava alcançar a criação de uma ciência social; é ele que, pela primeira vez, utiliza o termo sociologia.

Ele pretendia que a sociologia fosse a mãe de todas as ciências sociais e tentou compará-las com as ciências da natureza.
Este processo de comparação designa-se por POSITIVISMO. Ele excluiu a psicologia e a história, de forma a tornar esta comparação mais pura, pois estas são ciências não exactas.
O Positivismo surge como forma de comparação, mas foi contestado pelos alemães, pois para eles esta teoria não era real, dando muito mais importância ao historicismo. Segundo eles era impossível comparar as ciências sociais com as ciências humanas, pois nas ciências sociais não há absolutismo nem método, e também criticavam a sociologia, afirmando que esta nunca seria a mãe das ciências sociais.

Conhece-se assim dois tipos de sociologia: a francesa que dá mais importância à sociologia no seu todo; e a sociologia alemã que dá mais importância às relações humanas.
A existência de várias sociologias surge porque existem várias formas de perspectivar a sociologia.

Ideologia


A ideologia antecipa a teoria, daí que a subjectividade em Ciências Sociais é quase nula.
Segundo Shumpeter a ideologia significa o coeficiente de um determinado indivíduo, sendo o coeficiente, um conjunto de valores e ideias que orientam o comportamento de uma pessoa.

Nele estão incluídos o meio em que a própria pessoa é criada, a classe social a que pertence, e a sua própria subjectividade.
Um indivíduo é movido como sendo seu guia, pelos seus processos de socialização.

Se formos ao estrangeiro vamos encarar a sociedade segundo o processo de socialização pelo qual passamos, e muitas vezes tecemos juízos de valores.
A realidade não existe na sociedade, existe sim a realidade, pela qual nós vemos essa sociedade, segundo os nossos valores de socialização.
Temos várias perspectivas da realidade social, variando elas segundo a perspectiva do autor, daí ser quase impossível existir uma objectividade, numa perspectiva sociológica. Segundo Schumpeter a visão antecede a teoria.
MARX foi um grande pensador que utilizou o conceito de ideologia para analisar a sociedade.

A ideologia é uma forma deformada de fazer a leitura da realidade, que está ao serviço da classe dominante. Utilizou como exemplo a economia de mercado ou a ciência económica capitalista.
Essa ciência é uma pseudo ciência porque não corresponde à verdade, é um instrumento da classe dominante (poder), porque a economia justifica a exploração do Homem pelo Homem; a classe dominante é quem tem o poder político e económico.
Quando se fala de ideologias do desenvolvimento há que ter em conta: o desenvolvimento como ideologia e o desenvolvimento como utopia.
No desenvolvimento como ideologia: as sociedades tidas como desenvolvidas auto denominam-se como referência, modelo a seguir, pelos países em vias de desenvolvimento; produzem formas de pensamento e interpretação da realidade que acaba por constituir ideologias, as teorias escondem as ideologias; as utopias de exportação são modelos da sociedade capitalista e socialista, no fundo modelos não aplicáveis e por isso utópicos.
Estes factores têm representações nos países em vias de desenvolvimento: elemento mimetesco, ou seja, imitação copiar, sem perguntar porquê; elemento imparcial.
O elemento mimetesco é a transferência de modelos, ou seja, copiam os modelos; importam os modelos dos países desenvolvidos, o que muitas vezes origina vários problemas nos países em vias de desenvolvimento.

A cultura, normalmente os intelectuais do Terceiro Mundo que estudam nos países desenvolvidos, existe uma correspondência cultural; eles são veículos de transporte dos modelos ocidentais.
A Cultura explica quem são as pessoas que praticam o mimetismo e porque estas são consideradas as “elites do Terceiro Mundo”.

A cultura é um meio de percepção e de conhecimento, é um instrumento que serve para entender uma determinada realidade.
Esta é também a motivação do comportamento humano, a cultura marca e influência a conduta da própria pessoa, é uma referência.
Contribui para a elaboração de critérios de avaliação. Quem é “formado” numa determinada cultura vai agir e pensar segunda essa forma cultural. Também contribui para a diferenciação e estratificação social, para a estrutura de sistemas de produção e de consumo.

A exportação é aceite nos países tidos como desenvolvidos. A cultura ajuda a comunicação entre os Estados, contudo prejudica os países em vias de desenvolvimento.
O Elemento Imperial é a extensão de poder a uma determinada região ou realidade.

Os países do Terceiro Mundo procuram o apoio do exterior, como protecção e como garantia de continuidade.
O desenvolvimento como Utopia não é possível aplicar este tipo de desenvolvimento nos países em vias de desenvolvimento, pois a cultura e as pessoas são diferentes. É necessário a existência de tecnologia adequada à realidade local; em vez de se criar uma fábrica de computadores, cria-se uma fábrica de catanas. O seu ritmo de crescimento vai ser diferente.
Como as Utopias não servem para nada, as sociedades são diferentes, existe um tipo de desenvolvimento que se podem dividir em três aspectos importantes: problemas ecológicos (o que não se passava no tempo da industrialização); cultura local, têm de se respeitar os problemas socioculturais desses locais; sociopolítica e sociocultura.
As consequências da Utopia dos modelos exportados:
Na década de 50 a URSS era considerada o segundo mundo, onde o Estado era centralizador. Existência do Plano, que era o elemento fundamental na actividade e actuação do Estado, e este era uma Estado burocrático. Como referência ideológica existia o marxismo.

No entanto existiam outras referências mundiais: o quarto mundo, em que eram os países orientais asiáticos, como a China, o Japão as Coreias, etc; tinham como referência ideológica o japonismo.
O terceiro mundo era considerado o mundo da família ou da aldeia, sendo esta caracterizada por comunidades locais. As suas referências ideológicas variam entre o gandismo, anarquismo e o marxismo.
No que se refere ao primeiro mundo temos o mercado, o capital e as grandes empresas, e que tinham como referência ideológica o individualismo.
Contudo na década de 70 a situação altera-se devido à queda do petróleo e do modelo do primeiro mundo foi desacreditado, gerou-se uma crise conjuntural, o primeiro mundo deveria ser um modelo a seguir pelos outros três modelos, contudo deixou de o ser.
Na década de 90 o segundo mundo deixa de ser um modelo a seguir, devido à queda do muro de Berlim, a URSS perde a sua atracção, inicia-se o fim do socialismo. A Europa passa a ser um modelo atraente a seguir, bem como o mundo oriental.

As problemáticas do Desenvolvimento são: as ideologias estão sempre disfarçadas nas teorias; as ideologias escondem interesses, assim como preconceitos.

Hoselitz vs Parsons


Foi influenciado por Parsons, pois foi seu aluno. Na década de 50, Parsons acaba a sua teoria sobre o estrutural-funcionalismo e é nessa altura que ele vai importar a teoria do sistema para a sociologia, com o objectivo de poder estudar a sociologia americana.
Parsons considerou este sistema fazendo três tipos de analogias: o sistema era comparado ao económico, era comparado ao que se chamava de biológico e que era comparado ao que chamou de cibernética.
Ele vai utilizar o económico para realçar a interdependência (no mercado as pessoas dependem umas das outras, estabelecendo uma interacção). Utiliza o biológico para realçar dois elementos fundamentais: simbiose do externo e do interno que se conjugam e que contribuem para a sobrevivência da sociedade e da pessoa humana.
O cibernético está ligado ao problema do controlo, fala dos controlos de utilização. Ele vai realçar dois factores: o simbolismo e a informação; estes são utilizados como controlo social (estruturo-funcionalismo) e o que controla a sociedade.
Parsons vai utilizar um conceito, ao qual chama Sistema Geral de Acção, para compreender o funcionalismo da sociedade americana. Ele diz que a acção humana se desenvolve ao mesmo tempo em quatro contextos fundamentais: contexto cultural (normas), contexto social (integração), contexto psicológico e o contexto biológico (adaptação).
Quando um indivíduo pratica uma acção, vai englobar todos estes contextos. Para além de os chamar de Sistema Geral da Acção, Parsons também os designa por Imperativos Funcionais.
Onde o contexto cultural corresponde à estabilidade normativa (o que é essencial dos valores/normas de uma sociedade), o social corresponde à integração, o psicológico à procura de objectivos e o biológico corresponde à adaptação.
Todos os Imperativos Funcionais também fazem parte do Sistema Geral de Acção e sem eles nenhuma sociedade pode sobreviver, eles são indispensáveis, são necessários ao consenso da sociedade. O estrtural-funcionalismo não acredita em conflitos, diz que apenas desgastam a sociedade, o consenso é fundamental para a sobrevivência da sociedade.
A socialização é uma arma para evitar a violência; a socialização primária e secundária vão incutir no indivíduo valores e normas.
O sistema social, segundo Parsons, consiste numa pluralidade de actores individuais, ou seja, é um conjunto de pessoas e de instituições. Quando se fala de actores, fala-se no papel, e ele considera o papel como o elemento fundamental da sociedade. Considera a sociedade uma espécie de rede de actores, que desempenham papéis dentro da própria sociedade, e que a sociedade está interligada.
A sociedade existe na medida em que todos desempenham o seu papel, logo é o elemento base, mantendo a sociedade livre, dando-lhe vitalidade.
Ele fala também dos Componentes Estruturais: valores, normas, instituições, papel. E também estes correspondem aos Imperativos Funcionais e fazem parte do Sistema Geral de Acção.
Qualquer tipo de acção que seja da livre vontade da pessoa ou imposta pela sociedade, essa é uma Variável de Configuração. Esta está associada às escolhas a que os actores devem proceder perante uma realidade ou uma situação.
Para Parsons o sistema é um conjunto de indivíduos com papéis definidos dentro da sociologia.
A acção social desenvolve-se em quatro contextos onde ocorre a Acção Social: cultural, social, psicológico e biológico. Comparado com os imperativos funcionais, estes são fundamentais para o funcionamento da sociedade.
A estabilidade normativa corresponde ao cultural, onde estão incluídas as normas dos povos; o sistema social está ligado ao social, onde se dá a integração e a socialização; as motivações correspondem ao psicológico; a adaptação corresponde ao biológico, onde o nosso organismo se adapta à sociedade.
A sociedade é composta por indivíduos com diferentes papéis, criando uma rede em que cada indivíduo desempenha a sua função dentro da sociedade.
A variável é uma dicotomia da qual o autor deve escolher um dos termos previamente, a que o sentido de orientação seja denominado por ele, antes de poder agir sobre essa situação.
Ele criou cinco variáveis padrão: afectividade/neutralidade; orientação para a colectividade/orientação para si; universalismo/particularismo; adscrição/desempenho; especificidade/difusidade.
Nos seus livros, Hoselitz, defende que os países desenvolvidos (ocidentais) têm variáveis padrão específicas, mas diferentes dos países em vias de desenvolvimento, e que seriam: universalistas, orientação para a realização e especialidades funcionais.
A teoria universalista, onde nos países desenvolvidos, os indivíduos agem segundo as normas, do que é aceite pelo país, de acordo com o que a lei impõe.
A orientação para a realização, onde os indivíduos procuram uma profissão, tem orientação para a realização dos seus objectivos.
Holetiz faz uma selecção de papéis que, na sua perspectiva constituem um obstáculo ao desenvolvimento; estes têm o mesmo peso em relação ao desenvolvimento e subdesenvolvimento.
As variáveis têm o mesmo peso, condicionando os países subdesenvolvidos. Para que estes se desenvolvam é preciso abandonar essas variáveis padrões e adoptarem as variáveis dos países desenvolvidos.
Contudo, em termos teóricos, isto não é verdade, pois não é necessário o abandono das suas variáveis para se desenvolverem, pois nos países desenvolvidos existem também variáveis dos países subdesenvolvidos.
A escolha que ele faz em relação às opções dos sistemas (países desenvolvidos e subdesenvolvidos), o que ele quer atingir com esta distinção de sistemas é a análise dos países subdesenvolvidos e como eles poderiam atingir a modernização.
A sua opção deveu-se à sua tradição, ao tribalismo e às suas comunidades, factores esses marcantes nos países subdesenvolvidos.
Ele não analisa o país no seu todo, mas apenas uma parte, ele vai estudar, por exemplo, uma tribo e generalizar todo o país em função dessa tribo.
Ele caracteriza uma estrutura étnica dentro do país de modo a justificar a tradição, o tribalismo e o comunitarismo; o que teoricamente não corresponde à verdade.
Num terceiro ponto, Hoselitz agarra na argumentação de Parsons de que não é necessário estudar a estrutura social e rejeita a análise das estruturas sociais, para analisar a sociedade global.
Daí ele não utiliza a análise da estrutura social de um país pois iria descobrir a exploração de classes sociais por outras classes sociais.
O importante é compreender o papel de cada um, dentro da sociedade; teoricamente isto não é válido pois é impossível estudar uma sociedade sem estudar as suas estruturas politica e culturais.
As suas teorias não têm eficácia política, pois no EUA há cargos que são atribuídos, e este não é um país subdesenvolvido.

Sociedade


A Sociedade é um dos conceitos mais importantes para a sociologia; é um agregado de pessoas que habitam num determinado território, relacionando-se entre si e também com a natureza; esse relacionamento é de ordem social.
Estes indivíduos estão sujeitos ao mesmo sistema de dominação politica, e este grupo de pessoas têm a noção de que são diferentes dos outros grupos e que possuem uma identidade própria. [1]
O número de pessoas que pertencem ao grupo não é importante não é o factor condicionante para a designação de sociedade, a sociedade pode ter um número reduzido de pessoas, como poderá ter milhões de pessoas.
Existem várias vertentes da sociologia, pois esta preocupa-se com um número alargado de factores que existem na sociedade, e um desses factores a que a sociedade está sujeita é o Direito; assim existe uma Sociologia do Direito.
A Sociologia do Direito tem como objecto de estudo as relações entre os factos sociais e o Direito, tomando em consideração a sua produção e a sua aplicação na sociedade. [2]
Um dos seus objectivos é analisar as estruturas jurídicas como sendo fenómenos sociais singulares e também estudar o Direito como sendo um conjunto de normas que cooperam para a ordem social actual.
Assim pode-se afirmar que a Sociologia preocupa-se em entender a aplicação do Direito na sociedade, e estudando os efeitos dessa aplicação, sem contudo nunca esquecer o quão importante é para a sociedade a elaboração a aplicação das leis.
A coabitação em sociedade traduz-se na inter-ajuda, na solidariedade e na divisão social do trabalho. E a coabitação só é possível através da existência de um número mínimo de regras e normas, de modo a definir as condutas dos indivíduos, e esse conjunto de normas e regras a sociedade é a condição principal à existência da própria sociedade.
A ordem é o principal factor da sobrevivência da sociedade, os indivíduos ocupam o seu lugar, ocupam uma determinada ordem. A ordem social implica um complicado conjunto de normas propostas ao cumprimento dos seus membros. E é a norma que delimita e concilia a conduta dos indivíduos na sociedade.
Mas este conjunto de normas que a sociedade deve acatar, podem muitas vezes ser quebradas, mas isso não implica a validade da própria norma.
Pois, cada indivíduo, tem liberdade para acatar essas normas ou, pelo contrário, revoltar-se contra elas; daí a existência da punição para esses indivíduos, de modo a voltar a assegurar ordem social, que é o que faz subsistir a sociedade.


[1] Jorge Pité, Dicionário Breve de Sociologia, Lisboa, Editoral Presença, 1997, 1ª Edição
[2] Idem

terça-feira, setembro 05, 2006

A História da Eutanásia


A eutanásia não é prática recente, mas pode-se iniciar a sua história no início da civilização, mais precisamente na Grécia e em Roma. Contudo, não há provas concretas, nem vestígios suficientes que comprovem a prática da eutanásia, no seu sentido legítimo e verdadeiro, entre aquelas civilizações antigas. O que se pode apurar é que a eutanásia, mesmo em seu verdadeiro sentido de morte piedosa, não foi uma prática desconhecida para os gregos, tendo sido estes a lhe darem o nome.
A eutanásia que os gregos conheceram, que praticaram e da qual se tem provas históricas é a que se chama "falsa eutanásia", ou seja, a eutanásia de fundamento e finalidade "puramente eugénica".
Em Atenas, 400 anos a.C., Platão pregava no terceiro livro de sua "REPÚBLICA" o sacrifício de velhos, fracos e inválidos, sob o argumento de interesse do fortalecimento do bem-estar e da economia colectiva. E muito antes, Licurgo fazia matar as crianças aleijadas ou débeis que, cruelmente, eram imoladas em nome de um programa de salvação pública de uma sociedade sem comércio, sem letras e sem artes e trabalhada apenas pelo desígnio único de produzir homens robustos e aptos para a guerra.
Os romanos também praticaram a falsa eutanásia, exitem notícias de que conheciam a morte piedosa. Theodoro Hommsen, romanista alemão apresenta na sua obra "Direito Penal Romano" provas concretas da prática da eutanásia. O ilustre jurista alemão refere-se à Lei Cornélia que definia o homicídio, considerado este como sendo uma compaixão e explicava que se matava o enfermo para pôr um fim às suas dores.
Ainda entre os povos antigos, tem-se notícia de que os germanos matavam os doentes incuráveis; estes, na Birmânia, eram enterrados vivos juntamente com os velhos. Os eslavos e os escandinavos também apressavam a morte dos seus pais quando estes sofriam de mal incurável e irreversível.
A Bíblia, no Velho Testamento, menciona um caso emblemático da tentativa de suicídio, seguida de morte eutanásica: Saul, foi ferido na batalha contra os Filisteus e com medo de ser capturado pelos mesmos, pediu ao seu escudeiro que o matasse. Negando-se o escudeiro a matá-lo, Saul atirou-se sobre a própria espada, ferindo-se gravemente. Não tendo encontrado a morte, apesar disso, chamou um amalecita e pediu-lhe que o matasse, e foi atendido. David, ao receber a notícia da morte de Saul, contada pelo amalecita que o matara a seu pedido, não lhe perdoou e mandou castigá-lo com a sua própria morte.
Na Idade Média as informações disponíveis acerca das práticas eutanásicas são escassas. Sabe-se que, durante as guerras, era usado entre os soldados, um punhal pequeno e afiado, denominado "misericórdia", com o qual se livravam dos sofrimentos os mortalmente feridos. Foi nesta época que ocorreram inúmeras epidemias e pestes, e era comum a prática da eutanásia, uma vez que as doenças alastravam-se com maior facilidade, devido ao grande estado de miséria em que se encontrava a população durante o período de declínio do feudalismo.
Nos tempos modernos é relevante frizar o pedido feito por Napoleão, na campanha do Egipto, ao cirurgião Degenettes, de matar com ópio os soldados atacados de peste, no entanto este negou-se, porque a função do médico não era matar mas sim curar. Ensina a história que o objectivo de Napoleão era matar os enfermos irremediavelmente perdidos e já moribundos, a fim de que não caíssem vivos em poder dos turcos, uma vez que não mais podiam seguir a campanha.

No século passado, e neste, a eutanásia, sempre que aparece, vem seguida de repercussão social e de discussão doutrinária. Em nossos dias, uma série de livros e artigos têm surgido, envolvendo na discussão, contrária ou favorável, homens dos mais diferentes campos da ciência, como médicos, filósofos, juristas, psicólogos e teólogos.

Sociedade e Eutanásia


A eutanásia costumava ser um problema social em sociedade primitivas em que se eliminavam os considerados inúteis como por exemplo os recém-nascidos com malformações e as pessoas idosas.
Esta prática veio, no entanto, a terminar com o aparecimento do Cristianismo.
Até ao século XX a eutanásia não voltou a constituir um problema social ressurgindo nos anos 30 deste século especialmente na Alemanha.
O século XX foi considerado o século mais civilizado. No entanto, a eutanásia não demonstra isso.

Demonstra precisamente o contrário. A eutanásia não significa civilização mas precisamente o contrário o que contraria o espírito que se tentou desenvolver ao longo do século XX. Este espírito funda-se no respeito dos Direitos do Homem e na Dignidade do Ser Humano.
A prática da eutanásia desrespeita a Dignidade do Ser Humano pois a dignidade é independente da raça, do sexo, da habilidade ou capacidade mental e da saúde do Ser Humano.
O respeito da dignidade do Ser Humano distingue a sociedade actual das sociedades primitivas nas quais a vida de uma pessoa com deficiências era depreciada.

Poderão afirmar os apoiantes da eutanásia que o ser humano morrer para não sofrer. Não pode se afirmar isto. O Ser Humano não perde a dignidade ao sofrer.
Actualmente a medicina oferece vias para aliviar a dor dos doentes terminais.

A sociedade apela à eutanásia pois é portadora de uma mentalidade que tem como objectivo escapar e de fugir à dor a todo o custo.
A eutanásia traz alguns efeitos para os elementos que constituem a sociedade. Um deles é o medo. Medo que um doente tem que os seus parentes ou o seu médico lhe diagnostiquem a eutanásia quando estiver inconsciente e não poder exprimir a sua vontade.

Mesmo que só se admitisse a eutanásia a pedido do próprio doente isto seria perigoso pois hoje seria a eutanásia voluntária mas o passo seguinte seria pedir a eutanásia para quem não está em condições de expressar a sua vontade como por exemplo, o deficiente mental, o doente inconsciente.
Os próprios debates realizados a favor da legalização da eutanásia voluntária tendem a dar como exemplos os doentes terminais inconscientes o que revela a intenção deste grupo social a favor da eutanásia de ir para além da eutanásia voluntária.
O facto de um familiar decidir a aplicação da eutanásia a outro familiar quando este estiver numa situação de inconsciência cria nas relações familiares um sentimento de insegurança, medo que deveria ser um sentimento de solidariedade, amor e generosidade.
Na decisão desse familiar em aplicar a eutanásia a outro familiar pode estar em jogo elementos económicos como heranças, encargos e incómodos e poupança de custos.

Actualmente isso já se reflecte porque cada vez mais os idosos são abandonados em instituições que cobram elevados preços ao familiar do idoso. O familiar tem todo interesse em se desembaraçar do idoso.
Poderá a eutanásia corresponder a um sentimento de compaixão por aquele que sofre?

Não, porque decidir praticar ou ajudar a praticar a eutanásia pode-se julgar que se está beneficiar aquele a quem dá a morte mas é um acto deplorável porque se está a decidir o que é bom e o que é mau para os outros.
Por exemplo, os doentes em vida vegetativa, isto é, inconscientes com uma lesão celebral irreversível ligados a um respirador poderão decidir? Claro que não podem decidir mas os outros acham-se no direito de decidir por ele pois não consideram essa situação digna de um Ser Humano.

Será a pessoa inconsciente desprovida de dignidade?
Não, mas o facto de ter direito à vida dá-lhe a dignidade de pessoa, de Ser Humano que por muito que esteja doente não deixa de ser um Ser Humano nem a sua vida por mais difícil que seja não deixa de merecer respeito.
O que os defensores da eutanásia consideram é que o direito à vida deve se colocar num contexto de um "controlo de qualidade" que pode variar de sociedade para sociedade fazendo com que se trate o corpo humano como um mero objecto.
Mas o Ser Humano e o seu corpo não podem ser encarados como um mero objecto. O corpo é o fundamento da dignidade da pessoa humana.
Os defensores da eutanásia consideram que os inválidos em situações extremas convertem as suas vidas sem sentido em situações gravosas para os familiares e amigos mas também para os cofres públicos pois supõem altíssimos custos em prestações para a segurança social.
É inadmissível a morte de Seres Humanos para que não sejam um peso para os familiares ou para melhorar as condições económicas da colectividade. Isto é uma manifestação de totalitarismo, ou seja, o sacrifício do indivíduo em favor da colectividade como foi o caso do regime nazi em que se eliminava os inúteis por razões socio-económicas.
A eutanásia prospera num clima social que foge a tudo o que suponha sacrifícios a favor dos outros.
A primeira fase, das Campanhas a favor da eutanásia e para a aceitação social desta, é a apresentação de um caso limite de modo a violentamente chocar a opinião pública fazendo desaparecer as razões para não admitir outros casos semelhantes.
A segunda fase é o aproveitamento de eufemismos ideológicos e semânticos aproveitando da complexidade conceptual e terminológica suavizando-se o verdadeiro significado de eutanásia passando a falar de que se "ajuda o doente morrer" desviando a atenção da realidade que não é mais do que matar um doente.
A terceira fase consiste em retratar os opositores à eutanásia como retrógrados, anti-progressistas, como fanáticos religiosos. Pretendem transmitir que a eutanásia é uma questão ligada à religião.

No entanto, não defender a eutanásia não é uma posição religiosa, as Humanista ainda que esta posição possa estar ligada a motivos religiosos.
Finalmente os defensores da eutanásia apoiam a sua posição em inquéritos favoráveis mas que a experiência mostrou serem pouco fiáveis.
Por exemplo, em Espanha assistiu-se a um caso em que os jornais anunciavam que os médicos de Barcelona se mostravam a favor da eutanásia. Uma análise aprofundada do conteúdo do inquérito mostrou que os médicos eram afinal contrários à eutanásia e que a sua opinião foi manipulada para servir uma causa que eles não partilhavam totalmente.

Marcuse

Faz uma síntese entre o pensamento anarquista e o pensamento marxista.
A grande matriz da sua teoria é que o mundo, nesta época, estava a regido por dois totalitarismos diferentes, mas que no seu final ambos conduziam à mesma situação.
Por um lado estava o totalitarismo soviético e por outro uma democracia, que segundo Marcuse, era apenas um disfarce de um outro totalitarismo, o americano.
Ambas as sociedades são más em termos de condução e de opção da vida do indivíduo, e em que os indivíduos da sociedade soviética são mais pobres.
Na sociedade americana, o homem tem, aparentemente, todo o poder de escolha; é simplesmente uma utopia, o homem tem apenas uma única dimensão, que é escolher o que já estava previamente escolhido.
Esta sociedade cria uma falsa igualdade, originando uma ilusão no proletariado, em que este seria igual ao capitalista.
Tal ideia tem a função de evitar uma revolução.
Para solucionar este problema, Marcuse acredita que em ambas as sociedades vai acontecer, um dia, uma revolução.
Enquanto não acontece, ele alerta para uma desmistificação a nível ideológico, em todos os campos. Ele acredita que quanto menos a sociedade é reprimida, mais o homem é livre.
O marxisto nunca foi implantado, foi uma teoria nunca posta em prática, e que proponha um quadro de igualdade e liberdade para todos.
Marcuse chega à conclusão de que é possível conciliar o anarquismo com o marxismo.
Um dos seus principais objectivos era encontrar uma formula que, quer no campo social quer no económico, não faça perder a individualidade e por outro lado contribuir para uma sociedade melhor.
Também vai conceber a teoria do relativismo, ele defende que, de facto, tudo é muito relativo, não há verdades concretas e que tudo pode ser posto em causa; o que desagrada a sociedade mais conservadora.

NIETZSCHE


Filosofo, louco, rompe com todas as filosofias onde predomina a razão, ele vem romper com o racionalismo e com a moral.
Segundo ele, a sociedade é pobre, pois o homem sempre esteve reprimido e incapacitado de se expressar. Para existir uma total liberdade do homem, este tem que matar Deus, livrar-se do racionalismo; o homem te de se libertar das suas expressões.
A imagem de Apolo, Dionísio e Sócrates são utilizados por ele para expressar a perfeição do homem. Apolo representa a beleza, Dionísio representa a alegria de viver e Sócrates representa o lado racional do homem, sem esconder a sua vitalidade.
Para Nietzsche, a arte é toda a verdade do homem, onde ele se despe de todos os perconceitos e onde se pode encontrar a mais verdade do ser humano, pois o artista nunca está amarrado ao lado racional ou moral.
Ele vem propor que se acabe com a filosofia ocidental, esta filosofia apresenta por um lado a dimensão racional e por outro a dimensão religiosa, e que é culpada pela uma má formação do homem ocidental, pois é uma filosofia completamente errada e deturpada.
Para tentar corrigir este erro, Nietzsche, fala dos valores vitais. Ele vem dizer que os valores morais estão centrados, ao mesmo tempo, no plano racional e no plano religioso.
Assim o homem tem de parar e impor-se a si próprio, aos valores vitais e aos valores morais. A religião e o cristianismo servem para desvitalizar os valores que Nietzsche defende, e deseja substituí-los pelos valores morais ou religiosos, que apenas servem para enfraquecer o homem, para o incapacitar de distinguir o que ele verdadeiramente quer, e para o levar a uma moral que traça o seu destino logo á nascença.
A dimensão da morte de Deus está relacionada com a vontade de poder, é a verdade que cada individuo tem de querer fazer o que pensa, independentemente da opinião das pessoas que o rodeiam.
Mesmo que essa vontade possa parecer irracional, cada um escolhe o seu destino, esquecendo o lado racional.
Mas nem todos os homens conseguem alcançar o estado que Nietzsche refere, apenas alguns têm esse privilégio, e quem o consegue é intitulado de super-homem.
O super-homem é a capacidade de se ultrapassara si próprio, ultrapassar a cultura ocidental, é um renascimento de si próprio.
Nietzsche também nos trás o conceito de eterno retorno: é uma anomia em termos de natureza, no sentido de que nada morre e que tudo se transforma, e o homem faz parte dessa natureza.
Segundo o filosofo, o que distingue o homem dos outros seres vivos, não é a razão, mas sim a arte. Ele opõe a arte à ciência e vai contestar todo o racionalismo: a arte como forma de representação de toda a verdade, e a ciência como essência da razão, o resumo do que é racional.

Os postulados da saúde, medicina e da doença


Numa primeira reflexão pode-se verificar a existência de duas faces: a sociologia e por outro lado a saúde, medicina e doença.
O conceito científico é provisório e parcelar, nós apenas conhecemos pequenas parcelas.

A saúde, a medicina e a doença são considerados fenómenos sociais, exteriores ao indivíduo, onde a saúde é diferente de doença.
A sociologia trata os fenómenos sociais como sendo coisas, no entanto, estas podem ser coisificadas, ou seja, podem ser medidas, e pode-se mesmo afirmar que muitas vezes esta ciência social utilizou o mesmo caminho de algumas ciências naturais.
A sociologia, como ciência de observação que é, estuda, numa perspectiva positiva o conjunto dos fenómenos, estruturas, instituições, grupos, poderes, relações de força e comportamentos que se manifestam pelo facto do indivíduo viver em sociedade.
Na sociedade existem instituições e agrupamentos sociais dos quais fazem parte as instituições de saúde, como os hospitais e os centros de saúde.

Nas instituições de saúde o doente ganha um estatuto diferente devido à sua patologia, onde é tratado por médicos, no entanto as doenças de hoje não são as mesmas do passado.
A sociologia é uma ciência pluriparadigmática, pois existe uma complexidade real da acção humana, que pode ter como objecto de estudo a doença e também a saúde, ela tem uma forma diferente de construção dos objectos, mobilizando os conceitos.

Faz cruzamentos entre os vários autores tendo sempre como objectivo a análise dos fenómenos da saúde e da doença, como é um exemplo disso o estatuto do doente, dá ênfase à diferenciação social, no que se refere a classes ou grupos sociais. A saúde é um objecto de estudo mas não é um ramo da sociologia.
Na sociedade o indivíduo que se encontra doente é uma personagem social e a sua doença é considerada a realidade construída, daí a importância da saúde como um bem fundamental à vida e à própria sociedade, originou o aparecimento da sociologia da medicina e da saúde.
Segundo a autora Graça Carapinheiro, o sociólogo é um colaborador do médico, interpretando a relação estabelecida entre a doença e o doente, em interacção com a sociedade cultural em que este se insere.
A perspectiva do fenómeno de análise das dimensões sociais é diferente: as dimensões são o resultado da análise e da teoria. Cada ciência interpreta a realidade social de uma forma diferente, e que distingue por: problemática teórica (construção do objecto), a ideologia está sempre presente na ciência; definição de problemas; as diversas ciências constroem objectos e paradigmas que servem de orientação nas pesquisas.
O contexto histórico-social é fundamental no estudo das doenças, na sua configuração e no seu aparecimento. O nível paraxiológico remete-nos para um nível representacional da doença, pois as representações sociais são avaliações sociais. O nível imaginário remete-nos para o futuro como imaginamos o fim, como por exemplo a sida, esta tem um curto prazo de vida.
Existe uma tentativa, por parte da medicina em transformar uma doença aguda numa doença crónica, para se deixar de morrer da doença mas sim para se viver da doença.

A sociologia médica nasceu nos Estados Unidos da América, enfatizando a profissão médica com a sociedade, bem como as relações entre os profissionais de saúde e os doentes.
A sociedade colocava em causa a medicina que justificava a doença social através de causas naturais, onde a sociologia explica o social pelo social, o que significava a queda do biologismo.

A Construção Social da Doença

A saúde e a doença são fenómenos sociais, porque conduzem a implicações no funcionamento da sociedade, tanto a um nível micro como a um nível macro.
As experiências de saúde ou de doença influenciam o relacionamento com os outros, as tarefas do dia-a-dia e as representações de nós próprios.
É essencial, pois, que se faça a destrinça entre a doença como uma anormalidade/distúrbio no sistema biológico e a doença como experiência de estados alterados de bem-estar e do funcionamento social ou como experiência subjectiva de mal-estar.
Estas duas formas de encarar a doença nem sempre estão em concordância: alguém poderá sentir-se doente sem que realmente o esteja e vice-versa
A medicina é uma ciência histórico-social, vendo os indivíduos como sadios ou doentes, e não somente como simples corpos biológicos, mas também como corpos sociais. Corpos esses que se encontram inseridos numa sociedade, e que pertencem a uma determinada classe ou grupo social e que têm uma participação especifica nas relações sociais.

Assim a enfermidade não é apenas encarada como sendo apenas um fenómeno natural e técnico, mas é também um fenómeno social que está relacionado com o problema social, político e cultural.
Segundo o modelo biopsicossocial ter saúde é, o indivíduo estar em pleno no âmbito do bio, do psico e do sócio.

Na continuidade deste modelo encontra-se o modelo etnocultural, que para além de considerar os factores atrás importantes, também considera o factor cultural de extrema importância, e estabelece uma diferença entre doença e estar doente.
Kleinnam vem estudar a destrinça entre: Disease (ter uma doença) / Ilness (estar doente) / Sickness.

Ter uma doença é um conceito estritamente biológico e está relacionado com a patologia e sintomatologia de uma determinada doença; está no doente e exterioriza-se.
Estar doente, é o que o indivíduo sente, pode-se manifestar através de dor ou de desconforto, quer no âmbito psicológico ou no sociológico; algo exterior incomoda o interior do individuo.
Sickness é uma identidade social, é um rótulo que lhe é imputado e que o individuo aceita de uma forma que produz um comportamento desviante.
Hespanha também especifica estes três níveis da construção social da doença: Sikness, no que se refere à doença enquanto estado de enfermidade, onde os sinais de doença são confirmados como sintomas, e que daí poderão advir consequências social significativas; Disease, está relacionado com o reconhecimento patológico da doença; Ilness, como sendo o último nível da construção social da doença, e está relacionado com a experiência pessoal do doente.
Segundo Graça Carapinheiro, o interesse da categoria da doença, e que esta é o efeito da junção de duas possibilidades de análise, e estas mesmas possibilidades estão ligadas à doença.

Uma delas é a Acção, a qual faz a inserção da doença num encadeamento histórico e social, bem como a sua disposição na sociedade, as mudanças que irá provocar e também a sua multiplicidade dos hábitos sociais. A outra possibilidade de análise é através da sua Estrutura, onde confere a edificação social do estatuto do doente e estabelece diferenciações nas relações entre o doente-médico e doença-médico.
O reconhecimento dos efeitos de factores sociais na saúde contribuiu para o estudo epidemiológico das causas das doenças e possibilitou o alargamento das definições de saúde, de modo a que abarcassem critérios sociais e emocionais para além dos critérios clínicos.

Neste sentido, e segundo a Organização Mundial de Saúde, o conceito de saúde radica na noção de bem-estar – físico psíquico e social – e não meramente na ausência de doença.

segunda-feira, setembro 04, 2006

O Método em Durkheim


Historicamente discutiu-se se a sociologia poderia ou deveria aspirar a ser uma Ciência como sendo um modelo para conduzir pesquisas, sobretudo na medida em que o único meio para demonstrar relações de causa efeito – A experimentação – é difícil, senão impossível para se usar com a maior parte dos problemas sociológicos.
O método é pois um processo formado por um conjunto de fases de actuação sucessivas.
O método científico é accionado pelas várias ciências. As Ciências Sociais, em particular, utilizam-no na investigação sobre a realidade social.

A investigação em Ciências Sociais implica sempre a mobilização de um procedimento ou estratégia de pesquisa, ou seja, a forma como a investigação é planeada ou realizada.
A investigação científica sobre a realidade social, não é mais do que o processo de aplicação do método (procedimento geral orientado para o conhecimento científico) e de técnicas de pesquisa científica (procedimentos de actuação concretos e particulares que podem ser mobilizados nas diversas etapas do método científico).
Durkheim quis toda a sua vida ser um pensador positivista e cientista, um sociólogo capaz de estudar os factos sociais como coisas, de os considerar exterior ao indivíduo e de deles dar conta como os especialistas das ciências naturais dão conta dos fenómenos.

A resposta de Durkheim à questão de método é a seguinte: “Para estudarmos cientificamente um fenómeno social, temos que o estudar objectivamente, quer dizer, do exterior, descobrindo a via pela qual os estados de consciência não directamente captáveis possam ser reconhecidos e compreendidos” (Divisão do Trabalho Social).
Para Durkheim o objecto de estudo da sociologia são pois, os factos sociais, sendo estes considerados por ele como “formas de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se impõe a ele”.
[1]
Para Durkheim o sociólogo deverá abster-se de ideologias e definir rigorosamente os fenómenos estudados.
Podemos pois sintetizar o pensamento positivista de Durkheim ao focar dois aspectos: a sua metodologia e a sua concepção da sociologia. Quis antes de mais obter um estatuto de cientificidade para a sociologia nascente. Para isso, tentou caracterizar a especificidade da Sociologia e definir os métodos que lhe são mais adequados.

Em “As Regras do Método Sociológico” apresentou duas propostas que originaram interpretações muito divergentes.
O método de análise utilizado por Durkheim é um método objectivo em que é indispensável que os factos sociais sejam tratados como coisas.
Estabelece pela primeira vez na história da Sociologia, regras para um método de investigação sociológica, dividindo-as em funções das respectivas aplicações – observação dos factos sociais, distinção entre normal e patológico, explicação dos factos sociais e, finalmente, administração da prova.
Para Max Weber a sociologia é uma ciência que tem por objectivo interpretar a actividade social, explicando o seu desenvolvimento e os seus efeitos.
Uma das diferenças entre Durkheim e Weber é o objecto da sociologia. Para Weber, o objecto são as relações sociais, verificando-se uma diferença entre a sociedade e o indivíduo e, que a posição do observador, tem um papel importante na própria análise; este é o problema da neutralização da perspectiva específica do autor que está a fazer a investigação.
A neutralidade sociológica pressupõe dois factos: O critério de avaliação que Weber acha conveniente para aceitar a produção sociológica e, por outro lado, se nós temos a capacidade de impor ao público esse tipo de reflexão como legítima em relação à sociologia.

A avaliação da qualidade sociológica de um determinado produto, é ela própria social.
O investigador, no campo das relações sociais, decide a axiomática, as regras com que vai trabalhar: qual o ponto de observação, qual o ponto que vai ser observado, o modo como se vai observar e por fim, que conclusões se podem tirar.

A partir do momento em que o investigador estabelece as regras do seu trabalho, estas têm de ser cumpridas até ao fim da sua investigação. A actividade social deverá ser avaliada relativamente a uma acção “ideal típica” que seja racional.
Assim, o ideal tipo torna-se um instrumento privilegiado da pesquisa do sentido e da explicação causal. Pode ser definido como uma construção que liga as observações empíricas à perspectiva teórica.

O ideal tipo, o qual sendo abstracto, existe apenas no nosso imaginário e não na realidade, podendo contudo ser comparado com ela, sendo isto considerado a objectividade.
Durkheim resolve a objectividade estabelecendo a regra do método e usando a objectivação das ciências naturais na sociologia. Por seu lado, Weber faz uma análise menos radical do que é a objectividade, trazendo-nos a neutralidade axiológica e propondo uma análise em como a objectividade emerge como produto social.
A objectividade depende de um processo social, que por seu lado ocorre ao nível individual, ao nível do investigador, que separa as suas convicções e juízos de valores dos juízos de facto.

Os juízos de valor são as suas próprias concepções e os juízos de facto são aquilo que ele analisa em função dos seus interesses. Essa objectividade é avaliada socialmente quando possível de publicação numa edição sociológica.

[1]Jean Étienne et al, ”Dicionário de Sociologia”, Plátano Edições Técnicas, 1998, p 114